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5a1_ entrevista Guilherme Zarvos

por A Palavra Solta


Poeta, doutor em Letras - Literatura Brasileira - pela PUC-Rio. Mestre em Ciências Sociais pela UFRJ com a dissertação "Antropologia dialética de Darcy Ribeiro". Graduou-se em Economia pela PUC-RJ (1980). Fundou o CEP20.000 e foi membro do Conselho da Fundação Darcy Ribeiro.



Fotografia: Allain Júnior/A Palavra Solta





1 – Zarvos, essa primeira pergunta, quase como de praxe, mas sabendo de toda a sua formação plural, errante, completamente disposta à encruzilhada, é tentar entender quando e como escrever poemas se torna o eixo da sua vida.


GZ: Primeiro, eu nunca me vi como poeta ou escritor. Inicialmente, a minha vida seguiu um rumo bem dentro do que se esperava de mim. Meu pai era fazendeiro, e o máximo de utopia que eu me permitia era a de comprar uma rádio no interior e tocar o cenário cultural ao redor dessa fazenda para onde eu me mandasse. Por outro lado, ainda me faltava uma certa confiança. Eu lia, sabia o que era ser um bom escritor, e não me achava capaz de ocupar aquele lugar.

Mas ainda na fazenda eu começo a escrever um romance, que eu achava muito ruim, mas ali perto da casa dos meus trinta anos, que é quando rompo com a estrutura burguesa do meu pai, conheço Darcy Ribeiro (que foi casado com a minha irmã), começo a trabalhar com política, com educação pública...ali é quando explode tudo.

De 83 a 87 eu trabalhei com o Darcy, depois eu vou pra Índia. Outro grande impacto. A vida vai me dando os lugares que ocupo, por encanto, por encontro. Depois disso, eu vou à Berlim, assumo a minha liberdade sexual e escrevo meu primeiro livro.

Voltando para o Rio, o que eu tinha vivido na Europa, em relação à literatura, era algo mais gregário, e sempre foi essa a minha vontade: unir as pessoas, ativar os espaços.

Ter filho, casamento, reputação honrosa, tudo isso me exigiria muita certeza. A poesia consegue acolher essa pulsão de experimentação.



2 – O CEP 20000 então é uma iniciativa que parte primeiro dessa pulsão gregária que você viveu na Europa?


GZ: Quando eu volto, em 90, eu já vivenciava o Baixo Leblon, já tinha alguns amigos punks, e volto para terminar meu primeiro livro e ir tocando, primeiro as Terças Poéticas, mas ainda com muita incerteza, e depois o CEP. E aí tinha Chacal, os bem novinhos Michel Melamed, Guilherme Levy, e foram eles os principais influenciadores para que eu escrevesse poesia, porque o CEP era um evento de poesia. Meus dois primeiros livros são de prosa, meu terceiro de prosa poética, ou seja, essa noção do poema ela só aparece tarde na minha vida. E ainda assim, no Zombar, no Morrer, são livros que não me desarticulo da prosa.

O CEP é um corpo coletivo, e escrever poesia ali me parecia compor esse corpo. A minha participação até então era juntar muita gente, o Chacal já tinha um passado com a poesia, eu fui por ali, experimentando. Foi lindo ver aquilo nascendo, eu vi o Baixo Gávea explodir, e era isso que eu queria: gente na rua.



3 – Em um lugar tão engessado, a ideia de poeta, você parece sempre manter essa posição frouxa, limítrofe. E a sua própria trajetória também assume esse lugar errante, múltiplo...


GZ: Todas as formas, seja casar, ter filho, ou apenas conviver com o gesto poético, o que permaneceria seria essa vontade gregária. A diferença desse caminho que escolhi, é que eu tenho a liberdade de manter essa experimentação perene. Mas perceba, se eu ganhasse dinheiro com literatura, talvez fosse diferente, talvez eu me permitisse repetir o estilo; mas todo esse deserto nos obriga a essa honestidade.

Eu sempre gostei de conviver com a juventude. Ela pode ser um pouco agressiva, até mesmo se achar um pouco demais. Mas eu tenho a impressão de que é ali, mais ou menos até os 30 anos, que acontece um tempo mais poético. Não é só uma questão nostálgica, é entender que existe um tempo mais aberto, menos constrangido, um maior interesse no dispêndio.



4 – Como então caber nesse mundo de hoje?


GZ: Quando eu dava aula lá em 99, eu dava aula de Ciências Sociais, e lá eu já via que a direita era muito maior na sala do que a esquerda. A maioria queria um sistema fascista, autoritário. Esse ovo da serpente é chocado há muitos anos. Isso sem contar que a direita sempre ganhou no Rio, ao passo que todas essas coisas também iam acontecendo na minha vida e cena cultural.

Na Ditadura existiu toda a arte que a gente conhece: Teatro do Oprimido, de Arena, Zé Celso, a geração marginal da poesia. Nós sempre existiremos, eles que passam.



5 – E o que você espera da rua após a pandemia?


GZ: O convívio entre pessoas é o que me faz ter motivação erótica para escrever. Não é solitário. Isso alimenta, você vai aprendendo, vê o que o outro lê, troca.

Eu sonho muito, porque há anos tomo remédios muito pesados. Depois da pandemia, todos os meus sonhos acontecem na rua, em um anfiteatro, em uma praça. Estabeleci uma relação de que ao passo que esses sonhos vão se tornando mais frequentes e nítidos, então mais perto está de voltar à rua.

Não sei o que esperar, mas o que vier, eu sou o último a sair.


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Pivetes

(para Roberto Corrêa dos Santos)


A infinidade do amor não exclui a

Disciplina. O estóico. As drogas pela

Manhã quase trazem o desatino

Por que os bares tem de fechar quando raia o dia

A família dos Coelhos e dos Culhões

O vômito

O acordar sorrir porque te amo

A indisciplina da mentira

Clássicos Mocassim preto marrom

Engraxar nas cadeiras altas do aeroporto

Hoje necessito inteligência

Andei me drogando demais

Vou às exposições do Centro da Cidade

Coloquei uma camisa de flanela de quadrados verde e azul

Por baixo uma camiseta marinho

Junho azul de um azul de junho


Encantador, moro no Rio.




Guilherme Zarvos em Zombar (2004).

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