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06 poemas de Cronwell Jara Jiménez na tradução de Marcelo Reis de Mello

curadoria de Marcelo Reis de Mello


Poemas do livro Manifiesto del ocio (Editorial San Marcos, 2006)


Lembro muito bem da figura, quase como aparece na foto. Um cara um pouco excêntrico, sorriso meio sacana, mas inteiro. De boina, óculos, um blazer grosso e gasto, com uma maleta cheia de livros na mão. Amigo do poeta y maestro Hildebrando Pérez Grande, aquele senhor de olhos endiabrados — à época com menos de 60 anos — vinha nos apresentar, numa das famosas sextas-feiras do Taller de Poesía da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, uma reunião dos seus poemas intitulada Manifiesto del ocio, lançada alguns meses antes.


Com apenas 23 anos, eu estava no Peru como estudante de graduação em Letras, fruto de um convênio entre universidades. E as minhas melhores lembranças da Universidad de San Marcos são, sem dúvida, dos Talleres e das aulas do Hildebrando sobre “La Generación del 98” espanhola, que acabaram me levando a traduzir e publicar mais tarde um clássico de Don Miguel de Unamuno, em português do Brasil: São Manuel Bueno, Mártir. Com apresentação bonita e afetuosa do velho Hilde.


Foi naquela sexta-feira que apertei a mão do Cronwell e troquei com ele meia dúzia de palavras. Pouco depois, todos o escutamos lendo, lendo com muita graça e humor, alguns dos poemas recolhidos no seu Manifiesto. O poemário é extenso. Os textos traduzidos aqui integram a primeira parte, a mais musical e erótica, dedicados ao “bom demônio”, aos “colhões”, ao “clitóris perfeito”, ao “falo ereto”, ao “raio” e a uma “amiga” a quem se quer muito. Poesia de pau duro, sim! (haja saco para a meia-bomba de certa poesia de pijamas), mas, antes de tudo: poesia amorosa. Dentro da melhor tradição que vai da poesia chinesa da Dinastia Tang a Alberto Caeiro, passando por aquela humanidade divinizada de César Vallejo. Ou, como escreveu Ricardo González Vigil, em seu Prólogo a Manifiesto del ocio:


Hay una extraña sapiencial en el poeta Cronwell Jara Jiménez, de fluir libérrimo, sin catecismo ni iglesias: estirpe de los profetas, del pensamiento cuestionador de Heráclito y Diógenes, del despojamiento taoísta y budista, del testamento de Villon, de los versículos febriles de Whitman y Nietzsche.


Ainda que Cronwell seja mais conhecido e premiado como narrador (sendo um dos principais ficcionistas peruanos, a partir dos anos 1980), acredito que estes poucos textos comprovam a qualidade e a força da sua poesia. Por isso, aproveito o espaço da coluna n’A Palavra Solta para divulgá-la no Brasil, país ainda tão ilhado entre hermanos. Esperamos que, no meio deste caos (político, econômico, sanitário etc.) e num momento em que o Peru conseguiu erguer um professor e sindicalista de esquerda à presidência — no lugar de mais uma Fujimori!!! — a poesia de Cronwell tenha um efeito politicamente dionisíaco. Afinal, precisamos de corpo. De muito corpo. E um manifesto do ócio não é uma ode à preguiça, mas uma rebelião contra a negociação do desejo.


Tenho o livro Manifiesto del ocio quase todo traduzido há muitos anos e espero publicá-lo em breve. Vamos? Espero que me perdoem por não publicar os originais aqui, por conta do tamanho do arquivo. Posso disponibilizá-los tranquilamente a quem quiser e me procurar. As traduções não estão prontas, com certeza há detalhes a corrigir, mas sinto que o momento é bom para a publicação. Incluí algumas notas explicativas, nos casos em que julguei necessário. Recebam com carinho (e corpo teso) estas odes tão bonitas do querido poeta peruano Cronwell Jara Jiménez.


Site do poeta: www.cronwelljara.com



***


Elogios ao bom demônio

À Marian González e Jorge Bermúdez


Demônio, amigo:

Escuta esta súplica que resultará numa ode

à tua sorte.


Teus chifres e tuas finas patas de bode não me assustam.

Vejo-os mais como uma forma de arte ou poema;

a estética de um símbolo, uma espécie

de arte poética da astúcia ou do engenho

que acende todas as fagulhas das velas

e lâmpadas de sabedoria

— como fizeste com Leonardo Da Vinci

ou no doce acre e de mau gênio Michelangelo,

teu inimigo conterrâneo —.


Sim, ciência e arte imprescindem de ti.


Odes para ti, amigo.

Odes às tentações que tu, trambiqueiro, provocas.

Tigre no sangue percorrendo minhas mãos.

Serpente peçonhenta e arco-íris de todas as cores.

Adorável é a tua flecha cravada em meu peito.


Só mesmo por ti uma Irmã não se despe do hábito.

A braguilha de um bispo não se desabrocha.


Tigre que salta sobre um elefante da Malásia.

Propões o repto, o círculo de fogo de todos os

vulcões onde se deve impor sigilo ou violência,

ignorância sábia ou sabedoria sem ciência.


Ode a ti, meu bom demônio

porque vais contra tudo, não há escala de valores,

não aos códigos, fora as leis que impedem

o desenvolvimento, o avanço das tecnologias.

Fora a falsa moral, as falsas diplomacias

as impertinentes hipocrisias do que fala

de paz e amor enquanto outros reclamam e

se matam, se moldam, se trituram sob seus crânios,

se metralham, se incineram, se dissipam,

se incendeiam, se bombardeiam, se envenenam

e nada acontece, como diria o poeta Molina Richter,

aqui nos Círculos do Inferno de Huamanga,

ninguém morre, aqui ninguém desaparece, aqui ninguém

é torturado, pregado, moído, arrebentado

a dinamitadas, aqui não arrancam os olhos de ninguém

e tampouco arrancam a língua de alguém, nem

lhe ameaçam, nem lhe matam a mulher nem desaparecem

com seus filhos. Não, amigo, aqui amamos as festas,

os abraços de diabo com diabo. Por isso,

odes a ti, amigo, irmão.


Ode a tuas patas de bode, a teus cascos fendidos

dignos de um pincel de Picasso ou do

atormentado Goya que viveu tantos fuzilamentos,

guerras, forcas e pestes, pesadelos do mais

obscuro inferno medieval.


Sendo congressista, certamente ativarias

memórias, promessas não cumpridas,

incinerarias leis de opróbrio e atraso; e apoiarias

nomeações, sindicatos, aumentos de salário;

sabendo que muitas leis são parte de

interesses criados, pactos com as multinacionais

que são mais implacáveis que tu mesmo,

amigo demônio. Bem sabes que há outros

compadres de tua suíte infernal que tratam o mundo

como se se tratasse de repartir uma torta

com morangos e suave creme de chantili.


Velho amigo, veste um casaco e vem comigo

à minha mesa beber um trago,

desatarraxa teus chifres postiços

que te dão má fama, guarda teu caldeirão

fervendo em azeite vegetal light, sem colesterol,

e comprado com cartão visa, pois sei

que às vezes, como eu, nem tens crédito. Não sejas

fanfarrão que não te cai bem.


E assim é a vida, os tempos mudam, amigo.

hoje creio mais em ti porque te vejo piolhento,

remendado como um boêmio notívago

sucateado dos lixões da idade média.

E porque sabe o quanto sou digno e devoto,

depois de tão fodido quanto poderia ser,

porém mais sincero e talvez mais terno, como

obviamente não são os emperiquitados

que habitam os recintos de ouro e joias

vindas dos altares banhados a ouro onde

se esclerosam e mumificam os velhos santos e

os anjos pançudos lutadores e catchascanistas [1]

amos

do ringue do céu.


Mas falemos de coisas mais transcendentais.

Ode a teus colhões por bolar tantas armadilhas.

Se dizem que todos temos algo de Deus,

então Deus deve ter algo de diabo

e tu, algo de Deus, que há mais bondade no teu rabo.


Diabo, filósofo amigo,

porque todos te temem tanto?


Em que ciência, em que ofício, em que

fórmula não estás escondido?

Sigiloso e picante como o ají rocoto, [2] em que

médico e em que bisturi não terão te enxergado?

em que advogado não se ouve a tua voz?

em que magistrado não está a tua imagem?


Diabo joalheiro, diabo sapateiro.

Ourives entre os ourives, trapezista

nos circos, cambista de dólares nas esquinas

e professor de metafísica com P.H.D. em

insólita engenharia de ciências ocultas;

jogador de cartas e bacharel em biotecnias.


Diabo bibliotecário, cigano

e numismático, diabo açougueiro e jornalista;

monge, enfermeiro, futebolista seresteiro,

Ronaldinho em sacanagem; mas diabo

bêbado maconheiro putanheiro,

goleador nato contra o melhor goleiro,

mentecapto, cozinheiro de urubus e gatos.


Diabo agnóstico, antropólogo e pirotécnico;

inventor de falácias e falsas teorias;

diabo clonado, alcaguete, fino e verruguento;

diabo arquiteto, lascivo e baitola

teórico de sinfonias, maestro nos teclados;

inventor de perfumes sofisticados

— finos perfumes de astúcia em pequenos frascos —

em que olhares de um pivete

não é a ti que se detecta? Em que vale-transporte,

em que propina não deixas tua pata

pegada de tua astúcia? Em que pedidos de noivado

não foste flagrado, sorrindo?

em que melodia de Li Tai Po não é a ti que se escuta?

Os poetas do Queirolo para ti ficam pequenos. [3]


Diabo filho da puta minha melhor amiga;

amigo inimigo e fiel companheiro;

te olho no espelho e te vejo, coringa e cínico

adivinho em bola de cristal; montesinista, [4] sei

que obrigas o anjo a ser camanejo [5]

e ao câncer um pouquinho angélico e maligno

— isso sim, meu chapa, não está certo —

porque todos necessitamos de ti, discreto amigo.

Tomara que quando morras vás direto ao paraíso.


Sei que venderias dólares falsos

ao próprio Cristo; diabo chinfrim, chifrudo

e torto; saxofonista, pianista e corneteiro;

hedonista ilustre lanterninha e concertista,

mas de tão fodidamente sincero

inventaste a felatio, a contranatura

tão sincero empatafoda cínico e gozoso.


Admirável és oh rei do averno,

mas te detesto por sábio como te quero

por bruto. Guarda-me um lugar no céu,

arranja-me mulheres, cervejas. Aí jogaremos

os dados e os dardos para o tiro ao alvo.

Mete nesses anjos um pontapé

no rabo e também a Cristo se não entra

no circo e na sacanagem; que partam a procurar

destino para outro Judas ou a vender

frascos de perfume pirata ou patchuli

em Tacora, La Cachina ou noutro inferno. [6]


Pai meu, pai e avô,

deixa-me ingressar na tua escola e não

me feches a porta na cara; te banharei em pétalas,

te farei tatame de suaves orquídeas,

deixa-me alçar vôo contigo.

Sobre tapete de flores de jasmim voaremos;

deixa-me

ingressar no teu céu perfeito todo intriga e astúcia;

não me negues.

Estas asas que teus olhos vêem, não são asas

nem de morcego nem de anjo arrependido.

Pai meu.

Pai putíssimo. Reputadíssimo.

Reputíssimo Rasputín e cretino.

Pai meu, pai meu.


Notas

[1] Catchascanistas (termo proveniente do inglês catch-as-catch-can) é como são chamados os praticantes de uma espécie de luta livre andina.

[2] Pimenta rocoto (Capsicum pubescens) é uma variedade nativa do Peru, onde se encontram registros de produção desta espécie, por povos locais, há mais de 5 mil anos.

[3] Antigo bar e restaurante tradicional do centro de Lima, paradeiro ideal do movimento artístico da cidade, em meados do século passado.

[4] Vladimiro Montesinos Torres é um ex-político e ex-militar peruano, hoje preso em uma penitenciária de segurança máxima. Foi chefe do Serviço de Inteligência Nacional do Peru e assessor presidencial de segurança entre 1990 e 2000, durante o governo de Alberto Fujimori, num período marcado por corrupção e violação de direitos humanos.

[5] Natural de Camaná, cidade situada no Departamento de Arequipa, no Peru.

[6] Tacora e La Cachina são mercados de Lima que vendem produtos roubados, reconhecidamente perigosos.

***


Ode a meus colhões


Ode a meus colhões

onde cabem carruagens com touros,

meteoros, diamantes, pontes suspensas