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04 poemas de Derek Mahon na tradução de Eduardo Ferraz Felippe

curadoria de Marcelo Reis de Mello



Quando topei com a obra de Derek Mahon buscava poemas diversos do que ele nos oferta. Estava interessado em poetas que desafiam profundamente nossa capacidade de compreensão do poema, justamente questionando se os poemas são sobre alguma coisa ou se devemos empregar o aparato cognitivo da compreensão para esse fim. Os poemas de Mahon se movem em outra direção. São singelos e demandam outra postura da nossa parte.


Após algumas leituras, nasceu certo carinho por esses poemas simples. Deve ter sido coisa desses tempos; mas seus versos são mais do que a expressão da casualidade da topada. Não se encontram neles vozes poéticas híbridas ou experimentalismos radicais com a linguagem. O poeta, falecido ano passado, parece evitar excessivas quebras no verso, mudanças bruscas de ritmo, versos muito longos. Voltado para questões prosaicas, seus versos são comedidos e sucintos. A coloquialidade também pode ser tomada como essa sua busca por evitar a complicação mantendo a complexidade, como em “Primavera em Belfast”.


Alguns poemas parecem demandar de nós leitores a contemplação desinteressada para a apreciação poética como em “A Disused Shed in Co Wexford”. Referência da obra de Mahon, os versos “Nos fundos de um hotel abandonado / Entre as banheiras e os lavatórios / mil cogumelos se aglomeram em um buraco de fechadura / Essa é a única estrela no firmamento...” demandam a atenção voltada para pequenos cogumelos espalhados em um galpão abandonado, esquecido por anos, que emergem após um lance de olhar. Esses seres que cresceram no escuro apenas captam a nossa atenção como uma descoberta inesperada, como um instante de iluminação profana.


Proveniente do norte da Irlanda, Belfast, andou muito por aí, mas foi associado, em geral a Seamus Heaney e Michael Longley, mesmo que sua obra poética, na verdade, tenha como referência Auden. Publica regularmente desde a década de 1970, porém Mahon viveu um reconhecimento tardio, tendo lançado quatro coletâneas de poesia na primeira década dos anos 2000. Entre 2005 e 2007 apareceram Harbours Lights (2006) e Life on Earth (2007), ganhadores de prêmios na Irlanda, apresentando imagens poéticas acerca do futuro humano ante a degradação ambiental.


Dentre os poemas dessa tradução, encontram-se temas reafirmados em sua obra poética: a busca por refrescar a tradição, a relação íntima com a pintura, a manutenção de um olhar gentil ante os impasses humanos e a singeleza. Optei por poemas curtos e soluções concisas na tradução. Mantive a coloquialidade, como em “Vai ficar tudo bem” – poema que ganhou renovado interesse por ter sido recitado pelas emissoras de TV irlandesas ano passado. Aproveitando o caráter experimental da revista, envio também uma variação desse poema na qual valorizo a sonoridade em inglês, vinculado à historicidade de nossos dias. O título foi traduzido como “Tudo vai passar”. Temos então duas variações de tradução para o mesmo poema; cabe ao leitor pinçar a que mais o interessa. Também escolhi “Pátios em Delft”, no qual a pintura de Pieter de Hooch’s se tornou imagem guia para o enfrentamento de seus versos. Não selecionei para cá “Snow Party”, um de seus poemas mais conhecidos, nem mesmo “A Disused Shed in Co Wexford”, o mais citado. Também não escolhi os tercetos de “Lives”.


Pode até parecer incoerente, em tempos de tanta morte, em que cada número se remete a um corpo debaixo da terra, recitarmos “Vai ficar tudo bem”. Parece até ingênuo um poema como “Antártida”. Talvez seja por isso que esses versos caiam como uma luva. Sem buscar escape, ou uma simplória consolação, Mahon atenta para crianças nascendo, o sol se pondo, o tempo passando, a caminhada em uma manhã. Todos nós também estamos aí, nessas imagens, no prosaico da vida moderna que pouco a pouco se esvai por entre nossos dedos.



***



Tudo vai passar (I)


Como não ficaria grato em contemplar

as nuvens se dissipando além da claraboia

e uma maré alta refletida no teto?

Haverá mortos, haverá mortos,

mas não precisamos apenas disso tratar.

Os poemas fluem da mão espontâneos

e a fonte oculta é o coração atento.

Apesar de tudo, o sol se levanta

e as cidades distantes são belas, a brilhar.

Eu deito aqui na profusa luz solar

vendo a aurora e as nuvens voar.

Tudo vai passar.



Vai ficar tudo bem (II)


Como não ficaria grato em contemplar

as nuvens se dissipando além da claraboia

e uma maré alta refletida no teto?

Haverá mortos, haverá mortos,

mas não precisamos falar disso agora.

Os poemas fluem da mão espontâneos

e a fonte oculta é o coração vigilante.

Apesar de tudo, o sol se levanta

e as cidades distantes são belas, a brilhar.

Eu deito aqui na profusa luz solar

vendo a aurora e as nuvens passar.

Vai ficar tudo bem.



Everything is Going to be All Right


How should I not be glad to contemplate

the clouds clearing beyond the dormer window

and a high tide reflected on the ceiling?

There will be dying, there will be dying,

but there is no need to go into that.

The poems flow from the hand unbidden

and the hidden source is the watchful heart.

The sun rises in spite of everything

and the far cities are beautiful and bright.

I lie here in a riot of sunlight

watching the day break and the clouds flying.

Everything is going to be all right.


***


Pátios in Delft

— Pieter de Hooch, 1659

(para Gordon Woods)


Oblíqua luz sobre o banal, tijolo e telha –

Alvenaria imaculada, e por todo canto

A torneira, a vassoura e o balde de madeira

Continue assim. Zelosas do lar, as esposas

Dos artesãos seguem suas vidas frugais

Entre quintais varridos, modestos, mas adequados.

Folhagem esparsa, amontoada; brisa alguma

Desalinha a compostura elegante daquelas árvores.


Nem música de cravo emblemática

Das harmonias e desarmonias do amor,

Nem peixe lascivo, nem fruta, nem pássaro assustado

A fugir da gaiola enquanto uma virgem

Escuta seu sedutor, macula a casta

Primor do detalhe e o detalhe acabado.

Nada é acaso, nada é descartado.

Falta-nos o cachorro sujo, o gin acesso.


A garota de costas para nós, à espera

Que seu homem retorne a casa para o chá

Irá esperar até que a tinta desintegre

E os diques carcomidos admitam o mar revolto;

Isso também é vida, e a porta externa

Rachada, um fato verificável,

Tão vívido, memorável, quanto as grades

Reluzentes ante as casas em frente.


Eu lá vivi quando garoto e sei do carvão

Brilhando em seu galpão, da claridade

Vespertina sobre a mesa rústica,

Do teto espelhado em uma colher radiante.

Devo estar deitado em uma sala por lá,

Uma criança com gosto por versos,

Enquanto meus companheiros durões sonham com a guerra

Em veldt ressecado e campos de tojo encharcados.



Pois a luz pálida daquela cidade provincial

Irá espalhar-se, como tinta ou óleo,

Sobre o mal acabado mapa mundi

Horizontal que ocupa uma parede

E pune a natureza em nome de Deus.

Se apenas agora as Ménades, por direito,

Surgissem quebrando a louça, a ferro e fogo,

Serenamente dormiríamos em nossas camas a noite.



Courtyards in Delft

— Pieter de Hooch, 1659


(for Gordon Woods)


Oblique light on the trite, on brick and tile —

Immaculate masonry, and everywhere that

Water tap, that broom and wooden pail

To keep it so. House-proud, the wives

Of artisans pursue their thrifty lives

Among scrubbed yards, modest but adequate.

Foliage is sparse, and clings; no breeze

Ruffles the trim composure of those trees.


No spinet-playing emblematic of

The harmonies and disharmonies of love,

No lewd fish, no fruit, no wide-eyed bird

About to fly its cage while a virgin

Listens to her seducer, mars the chaste

Perfection of the thing and the thing made.

Nothing is random, nothing goes to waste.

We miss the dirty dog, the fiery gin.


That girl with her back to us who waits

For her man to come home for his tea

Will wait till the paint disintegrates

And ruined dikes admit the esurient sea;

Yet this is life too, and the cracked

Outhouse door a verifiable fact

As vividly mnemonic as the sunlit

Railings that front the houses opposite.


I lived there as a boy and know the coal

Glittering in its shed, late-afternoon

Lambency informing the deal table,

The ceiling cradled in a radiant spoon.

I must be lying low in a room there,

A strange child with a taste for verse,

While my hard-nosed companions dream of war

On parched veldt and fields of rainswept gorse.



For the pale light of that provincial town

Will spread itself, like ink or oil,

Over the not yet accurate linen

Map of the world which occupies one wall

And punish nature in the name of God.

If only, now, the Maenads, as of right,

Came smashing crockery, with fire and sword,

We could sleep easier in our beds at night.


***


Antártida

(for Richard Ryan)


‘Estou saindo e devo demorar um pouco’

Os outros acenam, fingindo ignorância.

No coração do ridículo, o sublime.


Ele os deixa lendo e começa a escalar,

Empurrando seu fantasma na neve uivante;

Ele está saindo e deve demorar um pouco.


A tenda murcha sob a crosta de gelo

E o congelamento é substituído por vertigem:

No coração do ridículo, o sublime.


Precisamos considerar isso algum tipo de crime,

Esse autossacrifício dos mais fracos? Não,

Ele está saindo e deve demorar um pouco


Sem dúvida, para sempre. Enzima solitária,

Embora a noite não ceda a lampejo algum, haverá resplandecer

No coração do ridículo, o sublime.


Ele se despede da pantomima terrestre

Silenciosamente, consciente de que chegou sua hora.

‘Estou saindo e devo demorar um pouco’

No coração do ridículo, o sublime.



Antarctica

(for Richard Ryan)


‘I am just going outside and may be some time.’

The others nod, pretending not to know.

At the heart of the ridiculous, the sublime.


He leaves them reading and begins to climb,

Goading his ghost into the howling snow;

He is just going outside and may be some time.


The tent recedes beneath its crust of rime

And frostbite is replaced by vertigo:

At the heart of the ridiculous, the sublime.


Need we consider it some sort of crime,

This numb self-sacrifice of the weakest? No,

He is just going outside and may be some time


In fact, for ever. Solitary enzyme,

Though the night yield no glimmer there will glow,

At the heart of the ridiculous, the sublime.


He takes leave of the earthly pantomime

Quietly, knowing it is time to go.

‘I am just going outside and may be some time.’

At the heart of the ridiculous, the sublime.


***


Primavera em Belfast


Caminhando entre os meus nessa manhã tempestuosa

Em uma maré de luz solar entre chuva e chuva,

Eu retomo minha velha conspiração com a pedra

Úmida e as imagens imóveis do coração vesgo.

Outra vez, como antes, relembro não esquecer.


Há um orgulho perverso em estar ao lado

De anjos caídos e recusar-se a levantar.

Todos nós poderíamos ser salvos mantendo um olho na colina

No topo de cada rua, pois aí está,

Eternamente, se irrelevante, visível –


Mas ceda às fórmulas humorísticas

O mistério espúrio no aceno cordato;

Ou mantemos um silêncio taciturno na luz e na sombra,

Ensaiando nossas soluções astutas sob

O olhar frio de um Deus tartufo.


Uma parte da minha mente tem que saber o seu lugar.

As coisas que acontecem nas cozinhas

E ecoam as ruas dessa cidade desesperada

Deveriam despertar mais do que meu interesse casual,

Exigir mais interesse do que a minha piedade casual.



Spring in Belfast


Walking among my own this windy morning

In a tide of sunlight between shower and shower,

I resume my old conspiracy with the wet

Stone and the unwieldy images of the squinting heart.

Once more, as before, I remember not to forget.

There is a perverse pride in being on the side

Of the fallen angels and refusing to get up.

We could all be saved by keeping an eye on the hill

At the top of every street, for there it is,

Eternally, if irrelevantly, visible —

But yield instead to the humorous formulae,

The spurious mystery in the knowing nod;

Or we keep sullen silence in light and shade,

Rehearsing our astute salvations under

The cold gaze of a sanctimonious God.

One part of my mind must learn to know its place.

The things that happen in the kitchen houses

And echoing back streets of this desperate city

Should engage more than my casual interest,

Exact more interest than my casual pity.


***



Todos os poemas foram retirados da coletânea New Collected Poems, Gallery Press, 2011.


Eduardo Ferraz Felippe é professor do Departamento de História da UERJ.



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